crossbreed
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... porque gratinada e com um raminho de salsa é uma coisa digna de reis, para já não falar que à noite, quando se apaga a luz, fica fosforescente, fica linda de morrer no meio da travessa, diga o médico o que disser, mas a radioactividade tem o seu encanto.

Júlio Cortázar, Fantomas contra os vampiros multinacionais (por 2 euros, na feira do livro da Bertrand, Dolce Vita)

A Claridade Cristalina da Atmosfera
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David Lynch, The Angriest Dog in the Word

Um cão atirava-se contra um portão de ferro pintado de verde, completamente fora de si, como se tivesse enlouquecido. Era um grande terra-nova preto cuja mansidão congénita tinha sido alterada por maus-tratos, solidão prolongada ou pela claridade cristalina da atmosfera.


In Vertigens. Impressões, W.G. Sebald

...When the wind lulls, the cradle will fall. Down will come baby and cradle and all.
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Yes, you must be a slave, and feel the lash, for you are not a man," she said calmly. She said this to me with perfect composure, not angrily, not even excitedly, and it was what hurt most. "Now I know you, your dog-like nature, that adores where it is kicked, and the more, the more it is maltreated. Now I know you, and now you shall come to know me.


In Venus in Furs, L. von Sacher-Masoch



Eurídice
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Todos os momentos da vida me parecem então juntar-se num mesmo espaço, como se os acontecimentos futuros já existissem e estivessem somente à espera que enfim os descubramos, tal como, quando aceitamos um convite, vamos ter a determinada casa a determinada hora. E não é concebível, continuou Austerlitz, que também tenhamos encontros marcados no passado, no que já foi e está em grande parte extinto, e tenhamos que lá ir à procura dos lugares e das pessoas que conservam connosco algum tipo de ligação?

in
Austerlitz, W. G. Sebald

Alice
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Gostava de passar pela experiência de um desses espelhos em frente dos quais um outro é colocado - sentir a minha imagem multiplicar-se por mim dentro até ao infinito - o interior de um espelho em face do qual outro foi posto. Sempre que dois espelhos amorosamente se interpelam, qualquer deles, incorporando o outro, o atravessa e, carregando-o consigo, se coloca, perfilado e atento, do outro lado.


O Infinito - Luís Miguel Nava



A rose is a rose is a rose
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[...]
- Ah, como são lindas, exclamou seu coração de repente um pouco infantil. Eram miúdas rosas silvestres que ela comprara de manhã na feira,
[...]

Quando Maria voltou e pegou o ramo, por um mínimo instante de avareza Laura encolheu a mão retendo as rosas um segundo mais consigo - elas são lindas e são minhas, é a primeira coisa linda e minha!, (...) (Ela poderia pelo menos tirar para si uma rosa, nada mais que isso: uma rosa para si. E só ela saberia, e depois nunca mais, oh, ela se prometia que nunca mais se deixaria tentar pela perfeição, nunca mais!)

E no segundo seguinte, sem nenhuma transição, sem nenhum obstáculo - as rosas estavam na mão da empregada, não eram mais suas, como uma carta que já se pôs no correio!, não se pode mais recuperar nem riscar os dizeres!, não adianta gritar: não foi isso o que quis dizer! Ficou com as mãos vazias mas seu coração obstinado e rancoroso ainda dizia: «Você pode pegar Maria nas escadas, você bem sabe que pode, e tirar as rosas de sua mão e roubá-las.» Porque tirá-las agora seria roubar.
[...]

Então a porta da rua bateu.
Então devagar ela se sentou calma no sofá. Sem apoiar as costas. Só para descansar. Não, não estava zangada, oh nem um pouco. Mas o ponto ofendido no fundo dos olhos estava maior e pensativo. Olhou para o jarro. «Cadê minhas rosas?», disse então muito sossegada.

E as rosas faziam-lhe falta. Haviam deixado um lugar claro dentro dela. Tira-se de uma mesa limpa um objecto e pela marca mais limpa que ficou então se vê que ao redor havia poeira. As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela. No seu coração, aquela rosa, que ao menos poderia ter tirado para si sem prejudicar ninguém no mundo, faltava. Como uma falta maior.

Na verdade, como a falta. Uma ausência que entrava nela como uma claridade. E também ao redor da marca das rosas a poeira ia desaparecendo. [...] E na clareira as rosas faziam falta. «Cadê minhas rosas?», queixou-se sem dor alisando as preguinhas da saia.
[...]

Já que não estava mais cansada, ia então se levantar e se vestir. Estava na hora de começar.
Mas, com os lábios secos, procurou um instante imitar por dentro de si as rosas. Não era sequer difícil.
[...]

Armando abrira a porta.
Calma e suave, ela disse:
- Voltou, Armando. Voltou. [...]
- Voltou o quê, disse ele de repente com dureza.
- Não pude impedir, disse ela, e a derradeira piedade pelo homem estava na sua voz, o último pedido de perdão que já vinha misturado à altivez de uma solidão já quase perfeita. Não pude impedir, repetiu, entregando-lhe com alívio a piedade que ela com esforço conseguira guardar até que ele chegasse. Foi por causa das rosas, disse com modéstia.
[...]

Ela estava sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhecido, cansado, curioso. Mas não tinha uma palavra sequer a dizer.
Da porta aberta via sua mulher que estava sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranquila como um trem. Que já partira.

A Imitação da Rosa, Clarice Lispector (extractos)

nil
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Brother, I am fire
Surging under the ocean floor.
I shall never meet you, brother—
Not for years, anyhow;
 
Maybe thousands of years, brother.        
Then I will warm you,
Hold you close, wrap you in circles,
Use you and change you—
Maybe thousands of years, brother.

Carl Sandburg, Kin

 





















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